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Carol e Macris ganham apoio de nutrólogo ao veganismo

  • por Clarissa Laurence
  • 22/11/2021

Atleta de alto rendimento pode ser vegano, sim, e tá tudo bem

Atenção: se você admira a Carol e a Macris por serem, além de excelentes atletas, adeptas do veganismo, mas não entende exatamente como isso tudo funciona na prática, senta aí que chegou a sua hora. Agora vamos detalhar o lado médico desta prática, através do nutrólogo Selênio Campos Filho, e a experiência vivida por meio das duas maiores representantes desse estilo de vida no voleibol brasileiro: a dupla Carolana e Fada Vegana.

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que o veganismo não se limita a uma alimentação restrita. Não é só a comida que não vem de origem animal. Um vegano se abstém de utilizar qualquer produto desta origem no vestuário, ou mesmo algo que tenha sido testado em animais, como cremes. Dito isto, chegou a hora de cravar o mais importante: não há nenhuma contraindicação médica para um atleta de alto rendimento ser adepto do veganismo.

Segundo Selênio, de 34 anos e que há oito atua como médico nutrólogo, apenas há uma atenção maior em alguns casos. Vamos conhecer cada um destes pontos agora.

“Não há nenhuma contra indicação. Só existem alguns cuidados com atletas veganos ou vegetarianos, principalmente se anteriormente a essa decisão eles já possuíssem algum quadro de anemia. Nestes casos, temos cuidados especiais como consumo de ferro e vitamina B12, que é importantíssima para a formação de células sanguíneas e para a função do sistema nervoso central, e que está presente em grande quantidade nos alimentos de origem animal”.

Selênio detalhou ainda mais este situação. “As dietas veganas têm uma quantidade maior de fitatos, porque as plantas e vegetais têm mais fitatos, e isso inibe a absorção de minerais importantes como cálcio e ferro. Já com uma deficiência de B12 e inibindo a absorção de ferro, isso pode favorecer o aparecimento de quadros anêmicos. É um cuidado que temos, especialmente em mulheres com fluxo menstrual maior”.

Outro sinal de alerta é quanto ao consumo de proteína. “O mais importante do atleta vegano é que ele consuma proteína de diversificados tipos de alimentos, de vegetais. Consumir grão de bico, lentilha, soja, porque cada um deles vai ter os aminoácidos essenciais, como o BCAA. Não existe um alimento que seja tão completo em aminoácidos como a carne. Por isso, quando você consome de diversas fontes, acaba pegando alimentos que são mais ricos em um tipo de aminoácido ou outro e assim completa a dieta de maneira adequada”, explicou Selênio.

Selênio em atendimento no Centro de Desenvolvimento de Voleibol (Foto: arquivo pessoal)

Pois se a gente começou dizendo que não há contraindicação e agora colocou todos esses indicativos de cuidados, chegou o outro lado da história. O nutrólogo afirma que estar focado na dieta vegana, inclusive, pode ser benéfico para os atletas, já que é algo que traz uma responsabilidade grande.

“Temos algumas vantagens em relação à dieta do onívoro, aquele que come de tudo, que eu vejo, através de observação, que as pessoas veganas ou vegetarianas são mais preocupadas com a alimentação, estudam mais e procuram seguir uma alimentação de uma maneira mais correta”, explicou Selênio, que complementou.

“Eles sabem que alguns déficits podem acontecer nesse tipo de dieta e procuram uma ajuda profissional. Além disso, a dieta do vegano é menos rica em gordura saturada e isso é bom. O consumo alto dessa gordura amplia muito a chance de aumento o colesterol e doença cardiovascular. Isso é uma vantagem. Outra é que tem se visto em alguns estudos que o índice de obesidade e sobrepeso tem sido menor em pacientes com essas dietas. Além disso, as pessoas veganas consumam consumir mais fibras”, destacou o nutrólogo.

Macris entre os animais e o vôlei

Ela poderia ter sido uma veterinária. Mas, ao conhecer melhor a profissão, o sonho foi descartado. Macris, então, manteve o foco no vôlei e todos nós agradecemos por isso. O estudo foi direcionado a Educação Física e hoje a levantadora da seleção brasileira e do Itambé/Minas consegue realizar o antigo desejo através da prática diária de ajudar os animais justamente através do veganismo.

“Hoje eu vejo que o veganismo sempre esteve dentro de mim, mas eu ainda não tinha feito essa conexão. Sempre tive amor pelos animais, desde criança. Eu queria cuidar, salvar e era algo que me tocava muito. Tanto que eu tinha o sonho de ser veterinária. Era um sonho de criança e hoje eu tenho uma consciência maior que é preciso passar por situações como abater um animal que eu acho que não teria estômago”, explicou Macris, de 32 anos.

O sonho de seguir a profissão não foi adiante, mas a levantadora da seleção brasileira e do Itambé/Minas buscou a maneira mais adequada a sua realidade de fazer a sua parte.

“Com o veganismo eu consegui encontrar uma forma de poder lutar por eles. Não diretamente, salvando um animal, como se eu fosse veterinária, mas de lutar por esses seres que não têm voz. No final do ano de 2016 passei a pesquisar um pouco mais sobre alimentação, entender mais os níveis de evidência científica e passei a descontruir muita coisa que levava como senso comum sobre alimentação”, disse Macris.

A paulista de Santo André, então, pesquisou mais e mais e chegou a conclusão: “vi que era possível ter uma alimentação sem nada de origem animal e ser atleta. Quando vi que a Organização Mundial de Saúde preconizava que era possível para qualquer fase da vida, inclusive, para atletas, fui buscar saber como”.

Macris em ação com a camisa do Brasil (Fotos: FIVB)

E se você pensa que Macris foi mudando sua vida aos poucos, você está enganado. “Resolvi fazer essa transição bem rápida. Excluí tudo que eu tinha em casa de origem animal, nas viagens com a equipe eu já não consumia mais nada e em 2017 iniciei o ano totalmente adaptada ao estilo de vida vegano, que não é só alimentação”, destacou a jogadora.

Na sequência, sua amiga e companheira de quarto na seleção brasileira, a central Carol, também aderiu o veganismo. Se ela acabou sendo influência para tal decisão, Macris não sabe responder.

“Está aí uma boa pergunta. Eu não tenho certeza se eu influenciei diretamente ou não. Nunca conversei isso com ela, apesar de sermos muito amigas. Indiretamente posso ter influenciado de alguma maneira, já que desde 2017, quando eu voltei pra seleção, nós somos companheiras de quarto. Nas viagens sempre tivemos muita proximidade, conversávamos bastante e acredito que o fato dela ter vivenciado todo o processo neste meu início – inclusive ela me ajudava bastante na comunicação porque eu tinha dificuldade de me perguntar em inglês sobre os alimentos – pode ser que tenha sido uma influência para despertar algo que ela já tivesse dentro dela. Existe muito isso. Às vezes só falta uma conexão e isso pode ter levado ela a pensar sobre a possibilidade. Vou mandar uma mensagem para perguntar a Carol”, disse Macris, aos risos.

Relaxa, Macris, deixa que a gente pergunta.

Carol recebe influência do bem

A central da seleção brasileira e do Dentil/Praia Clube, Carol, fez questão de confirmar nossa suspeita. Ela foi, sim, influenciada positivamente para a mudança no estilo de vida e também como a Macris adiantou, depois do instinto já existir dentro dela.  

“A Macris teve uma grande influencia na mudança do meu hábito alimentar. Já pensava em, quando parar de jogar, me tornar vegana. Para mim não fazia mais sentido seguir como estava. Já não comia carne dois anos antes de virar vegana. Então são cinco anos como vegetariana e três como vegana. Já tinha em mente que iria parar de comer os outros produtos de origem animal quando terminasse a carreira, mas vendo a Macris foi uma inspiração muito grande”, contou Carol, de 30 anos.

E é fácil de entender. Ver o rendimento da Macris em quadra faz qualquer um ter certeza de que o veganismo não atrapalhava em absolutamente nada. “Vi que dava certo, que ela tinha acompanhamento da nutricionista e que, dentro de quadra, ela estava ainda mais forte”, descreveu Carol, que tem uma longa história de amizade com a levantadora.

“Joguei com ela no Pinheiros (na temporada 12/13), morei com ela lá, e na época, a gente comia muito pudim e sorvete (risos). Acho que depois que virou vegana, ela está em uma fase muito melhor. Isso me despertou mais ainda a vontade que eu já tinha de ir para esse caminho. Lembrando que o veganismo não é só habito alimentar, é um estilo de vida que, para mim, faz muito sentido”, afirmou a mineira de Belo Horizonte.

Carol é uma das centrais da seleção brasileira (Fotos: FIVB)

O estilo de vida é por completo para a central. Como dito lá no comecinho da matéria, definitivamente não se restringe a alimentação. Carol afirma que o estilo de vida chega a ser decisivo, inclusive, na recuperação diária de treinamentos e jogos.

“Quando tomei essa decisão, deixei a alimentação ser o meu remédio. Hoje não dependo de tantos suplementos e vitaminas e sabia que isso poderia evitar as inflamações do corpo. Atualmente, graças a Deus, tenho poucas dores no meu corpo. Algumas são inevitáveis pelo esporte porque é uma intensidade muito grande. Mas, consegui conciliar muito bem o trabalho com duas nutricionistas que me dão muito suporte. Me recupero muito mais rápido dos jogos, treinos e faço uso de pouca suplementação. Tenho acompanhamento de três em três meses, quando faço exames a pedido das nutricionistas. O corpo se adaptou muito bem e fazemos apenas os ajustes como a suplementação da B12”, detalhou Carol.

O veganismo entrou verdadeiramente de fato na vida da jogadora. “Consegui abranger mais a questão sobre tudo que como, uso, penso. É preciso achar esse equilíbrio desde o que eu como, as coisas que eu compro, que procuro, sempre busco que seja vegano ou sustentável. O estilo de vida é estar atento ao olhar para que as coisas sejam boas para o meio ambiente, para os animais e, consequentemente, vão ser boas para a gente também”, disse Carol.

A satisfação e o prazer de ser vegana ficam evidentes em qualquer conversa com a central da seleção brasileira e do Dentil/Praia Clube. Mas, ainda assim, Carol faz questão de dar um tom ainda mais bonito a tudo que envolve a questão. É ouvir/ler e saber que ela sabe muito bem o que está fazendo e o valor que cabe nesta decisão.

“É importante saber que temos esse poder de escolha, quando, claro, você quer transitar por esse mundo sem sofrimento animal e bem mais saudável. Tenho postado mais sobre o assunto porque os fãs perguntam muito e as pessoas ainda têm essa crença de que é difícil e caro se tornar vegano. E não é. Venho tentando mostrar isso, que é bem tranquilo. Claro que tem horas, em hotel, por exemplo, que a comida fica um pouco mais escassa, mas sempre tem um comércio com o que eu preciso para aumentar o aporte energético que necessito. Tinha vontade de compartilhar isso com as pessoas e estou dando os primeiros passos, embora não seja muito das redes sociais. Espero que possa contribuir de certa forma, como a Macris contribuiu para mudar o meu estilo de vida também”, concluiu Carol.

* Artigos de referência

https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0192-9

https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-018-0237-8

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26707634/

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