Tudo começou com a conquista da medalha olímpica em 1992. Naquela época, Régia Favero e Francisco Lima, o Chico, se apaixonaram pelo vôlei. Um tempo depois, um pelo outro. A partir de 2002, quando se conheceram em um campeonato, o voleibol nunca mais saiu da vida do casal que veio traçando sua história de vida em paralelo a modalidade. Hoje, Régia e Chico comemoram 10 anos da Associação de Voleibol Feminino de Lages (Avofel), na cidade catarinense, como um desses exemplos de dedicação e paixão pela modalidade.
O amor pelo esporte se espalha nas quadras da escolinha que é realizada nos ginásios Jones Minosso e Ivo Silveira. O projeto começou com 13 alunas e hoje conta com 186, e uma fila de espera. Ensinar voleibol é prazeroso, e reviver um pouco do que experimentaram há 20 anos é relembrar tudo de positivo que a modalidade trouxe para a vida dos dois.
“A medalha de 92 marcou e 10 anos depois nos conhecemos jogando uma competição mista de praia. Nos enfrentamos na semifinal e ele ganhou. O Chico acabou campeão e eu fiquei em terceiro. Sem dúvida, aquele campeonato nos uniu”, contou Régia.

Os dois se casaram e pensaram juntos sobre a ideia de retribuir a tudo que o vôlei ensinou e proporcionou na vida do casal. “O voleibol sempre guiou as nossas vidas. Com ele aprendemos a ter disciplina, dedicação, enfrentar adversidades, traçar metas, lidar com as derrotas e as vitórias, respeitar o outro. Mais do que isso, o voleibol nos deu família. Ele nos acolheu, nos uniu e nos motivou a seguir em frente. E por que então não retribuir por tanto?”, disse Chico.
As aulas acontecem quatro vezes na semana, com a quadra dividida em três turmas: das 18h às 19h, de 7 anos a 10 anos; das 19h às 20h, de 11 a 16 anos, além de um espaço que trabalha o social com alunas acima dessa idade, mas que também querem praticar vôlei. Para isso, o casal conta com o trabalho de mais três professores e dois estagiários. Tudo é muito recompensador, mas também há momentos de aperto.

“Não temos palavras que possam descrever esse trabalho, que é mágico. Claro que, como em toda a trajetória, temos dificuldades. Nos faltam recursos para novos espaços, para ampliar a equipe e principalmente para viabilizar os campeonatos. No último ano a Avofel participou de estaduais em diferentes categorias, chegando nas etapas finais de todos, e se tornando campeã em praticamente todos. Conquistamos o respeito do adversário, a admiração dos pais, e principalmente construímos meninas fortes, corajosas, sonhadoras e dedicadas”, disse Régia.
O próximo objetivo dessas meninas sonhadoras é conseguir estar em duas grandes competições: o Festival de Estrela e a Taça Paraná. Para isso, Régia e Chico vêm se esforçando na busca por ajuda para custear as despesas.
“Fundamental para o nosso projeto é contar com os pais das alunas. No planejamento anual de 2022 está participar dos dois maiores campeonatos de base do Brasil, que são o Festival de Estrela e a Taça Paraná. Conseguimos inscrição para o festival, que exige um investimento alto, os pais estão ajudando, estamos fazendo rifas e vamos com o sub-14 e sub-16. E para a Taça, estamos correndo atrás de apoio. Ali é onde elas conseguem ver todas as equipes de base do Brasil e isso motiva bastante a continuidade do projeto”, explicou Régia.
Filhas de peixes
Como algo absolutamente natural, as filhas de Régia e Chico se tornaram atletas de vôlei. Isabele, de 15 anos, e Francesca, de 12 anos, não só jogam, como já somam conquistas. Com o pai como técnico, a primogênita foi campeã do Campeonato Brasileiro de Seleções (CBS) sub-17 pela seleção de Santa Catarina, no mês passado, no Centro de Desenvolvimento de Voleibol (CDV), em Saquarema (RJ).
“Desde sempre pensamos que elas estariam no vôlei (risos). Eu competi até os cinco meses de gravidez. Com seis meses elas já eram figurinhas conhecidas nos ginásios, alojamentos, JASC enfim, onde tinha vôlei, lá estavam as mascotinhas. Elas iniciaram em vários esportes. Fizeram balé, natação, tênis de mesa, caratê, mas o vôlei roubou o coração e o amor das nossas pequenas. As duas iniciariam com 6 anos”, contou a mãe coruja.

Acompanhar de tão perto o amor e o desenvolvimento das meninas no vôlei é motivo de emoção para os dois. Chico, como pai e técnico, se enche de orgulho em um momento especial como o de um título.
“É muito gratificante, além da alegria, orgulho e da gratidão que não cabe no peito. Um resultado expressivo abre muitas portas, o olhar para o projeto amplia, valoriza os nossos profissionais. E também nos desafia a nunca desistir, a passar por todas as dificuldades. Eu tenho uma crença que ter espelho é fundamental no desenvolvimento de seres humanos melhores. Tivemos um aumento considerável na procura pelas nossas escolinhas”, contou Chico Lima.
Espelho do profissional
E se ganhar um título aumenta a visibilidade, imagina só ver de perto ídolos da modalidade. Isso acontecendo quando Lages foi sede da Copa Brasil feminina, em 2018. Na ocasião, esse mesmo ginásio onde acontece a escolinha, Jones Minosso, recebeu, entre outras grandes estrelas, um dos maiores ídolos de todos deste projeto: Bernardinho.

“Ali vivemos nosso maior sonho, que era ter o Bernardinho na nossa cidade. Somos fãs incondicionais deste mostro. E aquele evento foi um divisor de águas. Depois daquilo triplicou a procura, a visibilidade, os olhares, a motivação. Hoje temos o sentimento de dever cumprido e cientes de que nosso trabalho deve continuar”, finalizou Régia Favero, idealizadora da Avofel.
Quanto à retribuição ao vôlei, podem dar check, Régia e Chico. O que vocês fazem é admirável e exemplar.