Lembro-me bem da voz do professor de Educação Física, Kodoca, soltando um sonoro “todo mundo vai para o paredão para treinar manchete e toque”. Na época, perdi as contas de quantas vezes tive que ir para o paredão. Reclamávamos, eu e meus colegas, mas íamos. Geralmente, o professor passava o exercício para todos, mas caprichava no grito quando insistíamos em errar algum fundamento no treino repetidas vezes. Eu estava no meio nas duas ocasiões.
Os treinos, com paredão ou não, passaram a fazer parte da minha época de Ensino Médio, ainda mais quando tínhamos competição à vista. Naquela época, treinávamos para jogar contra escolas de fora do Espírito Santo, onde morava e de onde sou. Entre um treino e outro, o professor de Educação Física sempre me falava: “pode treinar mais que você vai crescer e vai jogar”. Não cresci tanto, mas continuei treinando e jogando. Muito pelo incentivo dele.
Kodoca me levava para assistir às Etapas de Vila Vila do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia e aos jogos de outros times que ele treinava na cidade – e me convencia a bater uma bola para “ir me acostumando”. Pelo envolvimento com o vôlei, comecei a assistir com mais frequência aos jogos pela TV. “Menino, o que você está fazendo acordado”, dizia minha mãe quando levantava de madrugada e me encontrava de frente à TV assistindo a algum Grand Prix ou Liga Mundial disputada no Japão.
Ainda adolescente, fui convidado para treinar como levantador em um clube de Vitória-ES, o Álvares Cabral. Mas não consegui conciliar os treinos com os estudos. Deixei, então, a efêmera vida de atleta de lado.
Na faculdade cursando jornalismo, o encontro com o vôlei passou a ser durante os finais de semana, jogando na praia. Foi assim por alguns anos até que comecei a trabalhar com esporte, na Globo. Em uma das minhas primeiras oportunidades de conversar com a chefia de reportagem, deixei claro que tinha conhecimento e gostava de vôlei. “Estou à disposição para trabalhar nos jogos”, disse.

Em 2016, fui a trabalho para Cuba como correspondente. Desde que soube que iria para a ilha do Caribe, anotei na minha lista “fazer matéria de vôlei com Mireya Luis”. Apesar de não ter visto a geração tricampeã olímpica cubana jogar, assisti a alguns vídeos no Youtube. Os lances já eram o suficiente para admirar aquele time.
Em Havana, Cuba, fiz mais de uma matéria sobre vôlei. Visitei o Centro de Treinamento de Vôlei Cubano, onde presenciei jovens e talentosos jogadores treinando. Fiquei impressionado com a boa estrutura do local em um país onde campeões olímpicos de outras modalidades treinam muitas vezes em piso de cimento.
Na oportunidade, conheci a central Regla Torres, tricampeã olímpica. Ela também estava em um jogo amistoso entre as seleções masculinas de Cuba e Estados Unidos na Ciudad Deportiva, o principal complexo esportivo do país. Lá, conheci Mireya Luis, também tricampeã olímpica, que entrevistei para uma matéria sobre a rivalidade entre Brasil e Cuba nos anos 90. Na arquibancada, estava a bicampeã olímpica Yumilka Ruiz, com uma aparência totalmente diferente da das quadras. Não a reconheci à primeira vista. Estava à vontade, vestida confortavelmente para assistir a um jogo de vôlei. As três fizeram de tudo para que eu ficasse confortável naquela oportunidade e no país delas.
De volta ao Brasil, em 2016, trabalhei diretamente nas quadras, cobrindo a Superliga e acompanhando as seleções feminina e masculina em algumas oportunidades. O passado de contato com o esporte me trouxe uma confiança a mais no dia a dia de cobertura. Paralelamente, um pouco mais velho, voltei aos treinamentos na areia.
Em 2019, quando fui estudar na Inglaterra, participei do time de vôlei da universidade que estudei, a University of Leeds. Desta vez, voltei a jogar na quadra, aos 29 anos. Vencemos o campeonato estudantil nacional. E, finalmente, pude me sentir um pouco atleta.

O vôlei fez parte de cada fase da minha vida até aqui – e me apresentou a pessoas espetaculares, tanto de dentro quanto de fora das quadras. Na adolescência, o vôlei me deu foco, espírito esportivo e a realização de treinar em um clube profissional. Um pouco depois, a possibilidade de fazer amigos nos treinamentos na areia e trabalhar com o esporte já tinha muita intimidade – o que, cá para nós, facilita muito o trabalho! Aos 29 anos, o vôlei me fez me sentir um pouco atleta em outro país e me inserir em uma vida social universitária. Nessa oportunidade e até hoje o esporte é responsável pelas horas de alento da semana.
Tem muito desse esporte no que eu sou hoje. Por isso, sou grato pelas alegrias e raivas – assistindo a alguns jogos – que o vôlei me proporcionou.
Cada reclamação e bola batida no paredão do professor Kodoca valeram a pena.