
Você consegue imaginar a realização de um campeão olímpico? Enorme, né? Agora imagina ser bicampeão olímpico. Agora, então, imagina algo bem mais difícil: ser bicampeão olímpico em uma modalidade, trocar, mudar de país, e ganhar mais uma medalha de ouro em uma edição de Jogos Olímpicos. Pois isso tudo aconteceu com Guilherme Tenius, o Fiapo.
Sua história na seleção brasileira começou como fisioterapeuta, em 1997, com o grupo feminino. Homem de confiança de Bernardinho, Fiapo migrou para a seleção masculina junto com o chefe em 2001 e seguiu até 2016, sendo campeão olímpico em 2004, em Atenas, e justamente na despedida, no Rio de Janeiro, sua cidade natal.

Logo depois dos Jogos do Rio, Fiapo decidiu deixar a seleção e mudar de vida. Foi morar nos Estados Unidos com a família – a esposa Adriana e as filhas Renata e Gabriela. Aí tudo mudou de verdade. Surgiu a oportunidade de trabalhar com o vôlei de praia, através dos amigos de infância Anjinho e Loiola, e, pouco depois, integrar equipe da dupla April Ross e Alix Klineman. O trabalho foi direcionado ao de assistente técnico e o que aconteceu? Mais um ouro olímpico, desta vez em Tóquio-2020.
A decisão de sair da seleção não foi das mais sofridas. Segundo Fiapo, a ideia já vinha sendo amadurecida ao longo de todo o ciclo olímpico.
“Eu já estava meio cansado da vida que tínhamos de clube, seleção, não tinha férias, nem fim de semana, nem feriado, carnaval e ainda tinha a minha clínica. Eu trabalhava de 7 da manhã às 8h30 da noite, de segunda a sexta, viagens no fim de semana e segunda-feira começava tudo de novo. Eu quase saí da seleção em 2012, mas o Bernardo me convenceu a ficar e buscar o que era nosso na nossa casa. Pensei bem, conversei em casa e resolvi a ficar até 2016. Foi um processo que fui amadurecendo ao longo do último ciclo olímpico”, contou.
Quando perguntado se a decisão de sair foi sofrida, Fiapo foi certeiro: “tive a maior paz e certeza quando vi o primeiro jogo da seleção em que eu estava fora depois de 20 anos”. Esse episódio aconteceu logo em 2017, na estreia do Brasil na Liga Mundial. “Acordei às 4 da manhã, fui sozinho para a sala, liguei a televisão para saber como eu ia me sentir. Ali eu vi que tinha tomado a decisão certa. Estava torcendo muito por eles, mas estava muito bem onde eu estava. A história na seleção acabou em 2016 da melhor forma que poderia”.
Ao longo desse tempo todo foram muitos momentos marcantes. Difícil, mas não impossível apontar um só.
“Foram 20 anos, sendo quatro com a feminina e 16 com a masculina, e alguns momentos sensacionais. A primeira Olimpíada com a seleção feminina, em 2000, a primeira medalha, o saque do Giovane no Mundial, depois o ouro olímpico em Atenas, que marcou demais aquela geração. Tiveram momentos bem especiais, mas o maior de todos fechando em 2016, no meu país, na minha cidade, no Maracanãzinho, um templo do vôlei, com todo mundo ali, minha mulher, mãe, filhas, amigos, foi demais”.

Dali em diante, Fiapo e sua família só pensavam na mudança para os Estados Unidos. “Em 2015, vim para a Califórnia e fiquei encantado com o estilo de vida aqui. A minha filha mais velha já tinha como objetivo estudar nos Estados Unidos, conversamos muito depois dessa viagem, fui atrás e deu tudo certo. Viemos tranquilos, com o green card, e começamos do zero para tentar uma vida nova em um lugar seguro, organizado, bonito”, detalhou Fiapo.
A mudança foi brusca, mas o agora treinador fez questão de importar tudo que havia aprendido com referências da modalidade nos tempos de seleção.
“Com o vôlei eu aprendi tudo. O Bernardo é o maior treinador de vôlei da história, de todos os tempos, e tudo o que eu aprendi ele me ensinou. Não só a parte técnica especificamente. Trabalhei com o Tabach, Rubinho e Chico dos Santos, que também são fora de série. Mas o Bernardo, como chefe, me ensinou muito em relação a competição, a vida e, principalmente, que não dá para fazer nada sozinho. Dos esportes coletivos, o vôlei é o mais coletivo de todos, como ele sempre disse. Aprendi que o ´nós´ é mais importante do que o ´eu´. Isso ficou muito claro ao longo de todos esses tempos. Ele fez um time fantástico individualmente ser uma máquina de jogar vôlei justamente porque jogava como time”, disse Fiapo, tecendo elogios ao consagrado Bernardinho.
E o grupo de atletas com quem trabalhou na reta final também deixou uma lição que o treinador carrega com ele. “Tirei uma lição de resiliência com esse último grupo. A geração de Bruno, Lucão, Lucarelli, Maurício Borges, Wallace, essa galera que sofreu com muitas críticas e depois conseguiu a medalha no Rio. Foi uma coroação de um grupo resiliente mesmo, que não desistiu. A lição é que se você fizer tudo certo, trabalhar legal, o resultado pode demorar a vir, mas ele vai chegar”, afirmou Fiapo.
E assim o fisioterapeuta e técnico chegou a mais um sonho olímpico. Tudo aconteceu muito naturalmente desde o desembarque aos Estados Unidos até integrar a equipe de April e Alix.
“No início houve um receio normal, de não saber o que eu ia encontrar pela frente, mas assim que cheguei as coisas foram acontecendo. Depois de duas semanas eu já estava trabalhando com o Loiola na praia e virar treinador foi uma consequência por eu não ter a licença para trabalhar com a fisioterapia. Tentei adaptar tudo que eu aprendi na quadra, e adaptar as necessidades da praia. Introduzi os trabalhos de repetição e tudo isso foi muito bem recebido”, contou.
O encontro com Alix Klineman, a norte-americana que jogou no Brasil pela equipe do Praia Clube, de Uberlândia, foi quase que por acaso. “Essa questão foi muito doida. Acho que foi o lance de estar no lugar certo, na hora certa. Em 2017, eu tinha acabado de dar um treino com o Loiola, como assistente, e estava indo embora, andando pela ciclovia da praia e de repente a Alix veio andando contra mim. Falou em português ´Fiapo, você por aqui`”, relembrou.

Até então não havia um grande contato entre os dois, mas, claro, se encontravam nos jogos. A simpatia já foi automática. “Ela perguntou o que eu estava fazendo, contei um pouco da história e ela disse que estava buscando fazer esse processo de adaptação a areia o mais rápido possível. Depois disso, passamos a fazer treinos só eu e ela. Como ela já conhecia o estilo de treino e jogo do Brasil, ela adorou. E aí trabalhei só com ela durante quatro meses, duas, três vezes por semana”.
Na sequência, Alix recebeu o convite para formar dupla com a experiente April e foi. “Duas semanas depois, ela me ligou, disse que tinha falado de mim pra April e as duas acharam que eu tinha tudo para ajudar o time delas. Fui até lá, dei o treino e a equipe delas adorou. Entrei no time e fiquei. Acho que contribui não só com a técnica, mas com toda a experiência que trouxe do Bernardo, de não desistir nunca, lutar sempre e essa história acabou com a sexta medalha olímpica”, concluiu Fiapo.
A sequência de conquistas de Guilherme Tenius no maior evento esportivo do planeta acontece assim: bronze em Sidney-2000, ouro em Atenas-2004, prata em Pequim-2008, prata em Londres-2012, ouro no Rio-2016 e ouro em Tóquio-2020.
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