A vida de um atleta é cercada de cobranças. Algumas declaradas, como a dos torcedores, e outras que podem ser até veladas, vindas de um parente próximo e, principalmente, dele próprio. Algo inevitável. Talvez o ônus de uma carreira também cercada de tantas alegrias, de tanto prazer, satisfações e realizações. A questão principal, então, é saber lidar com essa cobrança. Não fazer dela algo excessivo e responsável por desestabilizar o próprio atleta. E como fazer isso?
Não é simples. Buscamos as respostas com a psicóloga de alta performance emocional, Anahy Couto, que trabalha com esporte há 26 anos. Atualmente, Anahy é psicóloga do São Paulo Futebol Clube e professora da ESPN, INSPER e FAAP, mas ela tem sua história no vôlei. Anahy trabalhou no Banespa ao lado de atletas como o Serginho, Dante, Filipe, Marlon, Theo, entre tantos outros, e dos técnicos Mauro Grasso e Rubinho. No feminino, atuou no São Caetano/Blausigel, liderado pelo trio Mari/Sheilla/Fofão logo depois de Pequim-08.
Além de tantas cobranças esportivas, os atletas se viram diante de uma pandemia que paralisou suas carreiras. A volta não foi fácil. Passar por todos esses obstáculos não foi e não vem sendo nada simples para muitos. Se aprofundar um pouco mais sobre o tema tão relevante no mundo atual é fundamental.

– Qual é o tipo de cobrança que tem provocado a maior perturbação nas pessoas atualmente, em especial nos atletas?
Acredito que seja a necessidade de performance constante. Isso leva as pessoas a um excesso de cobrança, a uma ansiedade porque está sempre em busca de algo. É como se nada que fizesse estivesse bom ou suficiente. Uma das frases que escuto muito das pessoas que atendo ou dos atletas é “não sou suficiente”. Sinto que isso é muito relacionado ao mundo que a gente vive, a demanda de ter que estar sempre bem, produzindo, batendo metas, ganhando, ter que jogar sempre bem e não ter pausas e respiros para ser um humano. Cobram da gente como se fossemos máquinas. É como se os atletas chegassem ao patamar que eles estão e por isso fossem sempre constantes em todas as questões de resultados da vida deles. Isso tem levado as pessoas a exaustão mental. Chega uma hora que falta energia e motivação. A gente sai de um estado humano e vai para um estado quase que automático em busca de resultados constantes. Além das redes sociais, que é outro fator nos coloca muito frente a comparação ao outro, onde todo mundo que a gente vê está bem, feliz, com dinheiro, com alguém que ama, em um relacionamento harmonioso, realizado, então as redes sociais mascaram muito a realidade das pessoas e essa comparação se torna mundial. Começamos a comparar uns aos outros, mas de uma maneira muito imaginária, como se tudo que nós víssemos fosse verdade. Isso tem levado as pessoas a depressão, inclusive.
– A forma como lidar com as emoções vividas ao longo do dia pode ser algo decisivo neste processo?
Pode ser decisivo no processo, sim, e inclusive a forma como a gente lida nos leva a ter uma saúde mental ou a adoecer mentalmente, gerando ansiedade, consequentemente problemas físicos, insônia, depressão, uma insatisfação constante, um vazio muito grande, porque não se sabe nem o que está procurando. A forma como encara isso, o primeiro aspecto é identificar essa realidade, identificar onde você está e isso interfere diretamente no nosso processo de como lidar com essa situação. A única questão para ter esse controle é o autoconhecimento para a gente conseguir discernir as situações dentro da realidade e ter realmente um parâmetro certo da gente. Ter uma noção se estamos conseguindo fazer bem, que bem é esse, o que a gente espera de sucesso, como vamos lidar com esse estresse, com essa competitividade, com essa cobrança e é muito importante ter estabelecido. A forma como a gente lida com esse processo faz toda a diferença.
– É correto dizer que o desequilíbrio emocional facilita o surgimento de doenças mentais?
É correto, mas não é só isso. É correto porque a partir do momento em que a gente está em desajustes emocionais ou vivendo uma vida ou enxergando uma situação dessa maneira e não atua sobre isso, não interfere, deixa a situação nos levar, a gente agrava muito mais um quadro que no início seria mais simples de ser diagnosticado e tratado. Agora existem doenças mentais que independem do externo. É uma pré-disposição da pessoa para ter, ou ela nasce com isso que pode, sim, ser agravado com o processo externo.

– E como fazer para um atleta chegar a esse equilíbrio? O primeiro passo é procurar um profissional da área? Quem é o mais indicado para isso?
O primeiro passo para o atleta ou qualquer outra pessoa é procurar um psicólogo. O profissional que cuida das emoções, que é treinado e capacitado para isso, é o psicólogo. Caso seja necessário, o psicólogo indica um psiquiatra. Essa avaliação psicológica, que eu chamo de checkup emocional, vai te mostrar aspectos emocionais que você pode controlar, que são passíveis de ser tratados em terapia ou se você precisa realmente de uma intervenção médica – mas aí o médico que intervém nas emoções é o psiquiatra. Quando você faz uma terapia, quando entra nesse processo, você começa a ter uma questão de autoconhecimento, começa a entender as suas emoções, sentimentos, o porquê das suas reações, começa a perceber as forças que você tem que podem ser desenvolvidas para lidar com essa questão. É muito importante que a pessoa se identifique no meio do todo, se identifique no mundo, na geração, nesse momento, para que consiga trabalhar o que ela tem, o que ela pode e deve desenvolver de habilidades emocionais ou comportamentos que pode extinguir, deixar de ter, para que ela não seja o maior inimigo dela, e sim se ajude. Para que ela seja um aliado dela nesse projeto. Para que seja o protagonista da vida dela.
– O esporte é uma carreira que propicia esse tipo de problema?
Sim, e muito. Tem dois fatores que a meu ver são gatilhos para isso. O estresse da performance, ou seja, você nunca pode não estar bem, seja fisicamente, emocionalmente, tecnicamente. Você tem que estar bem no dia que eles marcam, na hora que eles marcam, para enfrentar aquele adversário. Isso já é um fator muito marcante. Você não tem escolhas. Você é contratado para ter essa performance e, de novo, frequentemente. Essa exposição, que é diferente de uma empresa, onde você tem meses para bater metas, no esporte você tem que bater essa meta constante ou diariamente, já que se você treina mal, pode perder a posição. Outra questão é a exposição nas redes sociais. Hoje o mundo do atleta é diferente de poucas décadas atrás. Hoje, as pessoas te julgam, te condenam, comentam das suas performances, ofendem você, a sua família, e elas te reconhecem na rua justamente por essa super exposição, seja pela televisão ou por qualquer rede. São fatores que causam uma ansiedade muito grande, uma pressão muito grande.