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Árbitra Débora Santos expõe motivos para estar longe do voleibol de elite

Árbitra há 25 anos, Débora Santos é uma figura que não passa despercebida pelos jogos de vôlei. Comunicativa e mais descontraída do que os seus colegas, ela chama atenção, inclusive, dos torcedores da modalidade. É conhecida entre eles. Débora gesticula, conversa com atletas e comissões técnicas e é polêmica. Sim, Débora Santos é polêmica.

Neste momento, a árbitra está fora da Superliga, principal competição do calendário nacional do voleibol. Por opção própria, que fique claro. Ela achou que essa era uma forma de chamar atenção para o que considera equivocado no tratamento dado a sua classe.

Nessa entrevista exclusiva, Débora coloca suas opiniões, se expõe, como é de costume, além de falar do amor o vôlei. Apesar de afastada da Superliga, Débora segue apitando. Há três semanas estava no Campeonato Brasileiro de Voleibol Sentado, em Ourinhos (SP), e há duas na Rota Sudeste de Voleibol Master, em Guarapari (ES).

Débora em ação na Copa Brasil masculina 2021, em Saquarema (RJ) (Foto: William Lucas/Inovafoto/CBV)

– Primeiro de tudo, o que aconteceu para você não estar apitando na Superliga e em outros campeonatos grandes?

Eu optei por não participar. Não concordo com as cláusulas do contrato que nos foi imposto, não concordo com a maneira como a situação foi conduzida pela COBRAV. A desvalorização da arbitragem acontece há muitos anos e, por mais que a gente questione, os que aí estão se perpetuam nos cargos dando sempre a mesma resposta: não podemos fazer nada. Então eu cansei. Não do jogo, que eu amo, mas de ter que conviver com as pessoas. Porque, extra oficialmente, muitos concordam com os questionamentos. Mas, ninguém se posiciona justamente por que sabem que haverá punição.

– Você acha que há uma falta de padronização no trabalho dos árbitros no Brasil?

Não existe nenhuma padronização. Não existe acompanhamento, avaliação, feedback, reuniões. Os melhores árbitros do país não atuam na maior competição nacional porque seus Estados não possuem equipes participantes. Não existe investimento em formação, promoção, melhoria. Cada estado atua de forma independente, o que traz um enorme prejuízo para as equipes.

– O que você acha que tem que melhorar na arbitragem brasileira?

Cursos de formação, promoção e RECICLAGEM constantes. Mudança nos cargos de comando da COBRAV: há membros que estão lá há mais de 20 anos. Participação dos árbitros em todas as reuniões referentes a regulamentos de competições e eventos sob a responsabilidade da CBV. Acompanhamento e avaliações constantes das atuações. Volta da arbitragem neutra na Superliga. Implantação do “coach” de arbitragem com a função de avaliar, dar feedback e identificar talentos.

– Entre os árbitros, acredito que você seja a mais conhecida dos torcedores. A que você acha que se deve esse carinho dos fãs com você?

Talvez porque o meu perfil não seja adequado à função, o que acaba gerando situações inusitadas. Eu sou muito expansiva, comunicativa e transparente. E essas características são nítidas da minha personalidade. Junte-se a isso o fato de eu ser professora e me interessar que técnicos, atletas e espectadores tenham conhecimento sobre a modalidade. Quando você entende o que acontece, naturalmente, o interesse aumenta. E, claro, as pérolas que eu acabo soltando porque me esqueço daquele microfone X9 (risos). A quadra é minha diversão, meu lazer. E eu acho que precisar ser agradável para todos os participantes. Para dominar o jogo é preciso ter conhecimento profundo da modalidade e estudar sempre.

– Na sua opinião, como tem que ser a relação entre árbitro e atletas?

A melhor possível. E eles estão passando a entender que somos complementares. O árbitro é apenas um mediador, detentor das regras. Os atletas são as estrelas do espetáculo. Cada um tem a sua função e quanto melhor for essa relação, melhor será a condução do jogo. Árbitros e atletas não são inimigos. Estamos ali pra ajudar. Então, a relação deve ter respeito, cordialidade e cumplicidade.

– Você acha que lida bem com eles e com as comissões técnicas durante um jogo?

Hoje, sim. Já tive problemas porque eu tenho uma personalidade forte e por ser mulher tive que me impor pela autoridade até ser respeitada. Nem sempre as pessoas compreendem ou aceitam uma figura de autoridade. Hoje a relação é completamente diferente. Tenho amigos entre atletas e comissões. Ajudo vários tirando dúvidas, orientando, esclarecendo. Durante o jogo, eles passaram a respeitar a pessoa que conhecem fora de quadra. E eu costumo permitir que eles tenham liberdade de atuar, questionar e até contestar. Desde que não haja falha na comunicação e falta de cortesia. Hoje a maioria entende isso.

Partida pela fase final da Superliga 2020/2021 (Foto: Wander Roberto/Inovafoto/CBV)