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Michael: de vítima a peça-chave para uma mudança no vôlei brasileiro

Michael está fora do país há três anos. Passou pela Itália, Suíça, Inglaterra e, quando veio a COVID-19, ele já estava praticamente decidido a aposentar das quadras. Mas, uma nova oportunidade surgiu e hoje, aos 38 anos, o central atua na França, na quarta divisão do campeonato francês. A experiência de não só jogar vôlei, mas viver fora do país, tem acrescentado muito ao brasileiro.

Muito aprendizado, novas possibilidades e perspectivas estão todos os dias na vida de Michael. A verdade é que a vida definitivamente está boa na França. Mas, é inevitável lembrar que 2021 marca 10 anos de um dos episódios mais traumáticos na vida do jogador. Foi em 2001, quando atuava pelo Vôlei Futuro, de Araçatuba, no interior de São Paulo, que Michael se viu diante de uma situação inimaginável nos dias de hoje.

Mas, ela existiu. Infelizmente existiu. Hoje Michael fala com um pouquinho mais de leveza sobre o fato de ter ouvido o coro de “bicha” cantado por uma torcida adversária todas as vezes que ia para o saque. O principal motivo dessa facilidade de relembrar o assunto é justamente a compreensão de que o episódio serviu como um marco para a comunidade LGBTQIA+.

A partir daquele momento, o próprio clube do jogador abriu um espaço para que não se aceitasse mais aquele tipo de atitude. Foi o início de um basta. Hoje, 10 anos depois, Michael conta que viu o vídeo do fatídico dia em Contagem (Minas Gerais) apenas três vezes.

Ação realizada pelo Vôlei Futuro, time de Michael na época (Foto: reprodução Instagram)

“Tenho relembrado muito tudo o que aconteceu. Há poucos dias revi o vídeo daquele dia. Foi a terceira vez que vi o vídeo na minha vida. Na hora eu sabia o que estava acontecendo, mas, pelo calor do jogo, pela adrenalina, não tive tempo processar aquilo tudo. Agora, toda vez que eu assisto é pior. Eu me vejo cada vez mais humilhado. É doloroso e até hoje não consigo acreditar que aquilo aconteceu”, disse Michael.

O ocorrido ganhou proporção na mídia, mas o jogador acredita que se fosse hoje, com a força das redes sociais, a situação ganharia ainda mais destaque.

“Tem muita gente que usa a internet de maneira ruim, mas as redes sociais vêm, na grande maioria das vezes, para ajudar e expor o que vem acontecendo. Se aquilo tivesse acontecido hoje, com a dimensão que foi na época, teria sido um barulho muito grande. Estamos falando de 10 anos, parece que é muito tempo, mas é pouco. E tudo foi muito relevante”, comentou Michael.

Ganhos importantes para a comunidade LGBTQIA+

A compreensão de que havia vivenciado, mesmo que a duras penas, um marco, como falado antes, começou ainda naquela temporada. “Tivemos muitos ganhos depois disso. Todas as vezes que eu ia jogar, as pessoas pensavam mil vezes antes de qualquer coisa. Hoje podemos ver o Douglas esbanjando liberdade e isso é muito legal. Vemos também muitos atletas estão se assumindo, mesmo que isso não seja uma necessidade, claro. São muitas as formas de se assumir e se posicionar”.

Michael defendeu o Vôlei Brasil Kirin em 2016 (Foto: Divulgação CBV)

Vítima de um episódio público há 10 anos, Michael faz questão de dizer que esse, infelizmente, não foi o único, nem mesmo um dos poucos.

“O preconceito, a homofobia, infelizmente estão longe de acabar, mas cada ganho que temos é um passo enorme. E viemos conquistando cada vez mais. Acho que não devia ser tão lento. Não entendo porque as pessoas se preocupam mais com quem me relaciono, do que com o meu profissional, e o meu caráter. A falta de empatia, não só em relação a LGBT, faz tudo se tornar muito difícil”, opinou Michael.

O central já se pegou em dúvida quanto a atitude tomada na época do infeliz episódio. Mas, é claro, hoje está absolutamente seguro de que fez o apropriado. “Me perguntei várias vezes se realmente eu fiz o certo naquela época. Sempre bate a dúvida. Falo como LGBT e a gente fica com medo do que vai acontecer, quanto mais há 10 anos. Ouvi muitas pessoas falando que aquilo não era homofobia, mas a verdade está aí”.

Início tranquilo nas quadras e na vida

Pois se do lado de fora das quadras, a homofobia existia, Michael contou com bons parceiros mesmo antes de chegar ao Vôlei Futuro. O início da carreira, no Banespa, que na sequência passou a se chamar Santander e se transferiu para São Bernardo do Campo, em São Paulo, foi de total prazer e alegria.

“Eu sempre fui muito autêntico. E acho que entrei no clube certo, onde fiquei por um bom tempo e onde todo mundo me conheceu. Tive muita liberdade. Ali, não posso relatar nenhum momento de homofobia sofrido por atleta ou dirigente. Sempre fui muito natural. E por isso quando aconteceu toda aquela situação foi tão chocante. No vôlei, todos sabiam que eu sou gay. Quando acontece aquilo, foi uma dor tão grande por ser julgado pelo que sou. Eu vivi uma realidade que muita gente vivia, mas que até então eu não havia sofrido na quadra. Depois do que aconteceu, descobri que não precisava ter medo de nada”, disse Michael.

Michael em Londres (Foto: reprodução Instagram)

E se o início da trajetória no vôlei foi tranquilo, em família mais ainda. “Eu falo pouco sobre isso, mas a minha mãe é lésbica, eu tenho um primo gay e mais um tio gay. Brinco que a minha família é a mais gay do Brasil (risos). Nunca tive nenhuma retaliação em casa. Tudo foi muito tranquilo. Fui criado pelos meus avós, a minha mãe já era casada com uma mulher e ela me buscava aos finais de semana. O momento de me assumir foi através de um amigo meu que contou para a minha mãe, quando eu tinha 14 anos. Eu vivi em um ambiente muito saudável e sei que essa não é a realidade de muita gente”, concluiu Michael.